Fotografias e textos


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TRECHO:

Algumas lembranças, aquelas guardadas com mais carinho, resistem quase intactas em meio às muitas imprecisas memórias dos meus primeiros anos de faculdade. Repetido diariamente naqueles tempos, um pequeno enredo sobrevive no lembrar. Às sete da manhã aproximadamente, de segunda a sexta-feira, a história se desenrolava. Era um “oi, bom dia!” de lá, outro “oi, bom dia!” de cá, sem mais palavras.


TRECHO:

Pelos quilômetros, milhares de fieis arrastam, literalmente, a berlinda com a santa pelo percurso. A corda de sisal atrelada ao carro da santa é objeto de disputa para pagadores de promessas. Todos querem  participar do cortejo e entregam corpo e alma para realizar o feito. Com quatrocentos metros de extensão, os entrelaçados de sisal somem em meio às milhares de mãos que disputam espaço.

 


Trecho:

— Tenho uma casa com dois quartos, duas salas, copa, garagem pra quatro carros. Sabe quanto ela vale, jovem?
— Quanto?
— Não vale nada.
— Não?
— Sabe por que não vale nada?
— Por quê?

— Porque eu perdi a minha mulher há um mês e uma semana. Quarenta e seis anos juntos e agora acabou.


Trecho:

É lindo ver como a fé transforma. Helena, ao rezar, pouco parece a Dona Zinha sempre atarefada, carregada de responsabilidade. Ao lado do altar, seus olhos fecham-se delicadamente e o semblante de vó, bisavó e trisavó parece retornar à infância; leve como o sorriso de Sofia. Os lábios sussurram enquanto as mãos percorrem o velho terço. Não é possível acompanhar com precisão as preces. A estreita relação entre a fiel e suas crenças é um tanto misteriosa para quem assiste. Enquanto o terço que passa entre os dedos dá voltas intermináveis, Zinha permanece serena, conversando com seu Deus aos cochichos.


Trecho:

Anjos do círio acordam cedo no dia da grande procissão. Às seis e meia da manhã precisam estar prontos nos carros dos anjos, para seguir pela Avenida Presidente Vargas em meio aos fieis que aguardam desde muito cedo a passagem da santa por ali . Muito cedo mesmo, já que a santa só aparece no local por volta das 11 horas da manhã, ou mais.


Trecho:

Em pouco tempo os gritos se multiplicam.
Diz o velha-guarda, "Ó o guarda-chuva! Quinzão, minha senhora!"
"Mulher bonita 'nóis' faz a dez!",
dispara um mais galanteador.
"Guarda chuva, quinze reais!", um mais prático.
"Óóó o guarda-chuva, meu povo!", um populista, quem sabe?
É um mundo à parte. Um coral típico dos centrões urbanos.
Mas não são brados costumeiros.
São fenômenos sazonais, que somem ao mesmo passo que cessam os pingos.