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Sobre mágica

Hoje, no meio de um trabalho, comentei com um amigo fotógrafo que ele colecionava truques. Tempo depois, repensei e remoí a frase, com receio de que houvesse soado como acusação, como se truque fosse sinônimo de trapaça. Não é o que penso, claro.

Sou um cético apaixonado pelas mágicas, mas, acima de tudo, pelos truques. Porque o truque não tenta enganar o mundo, ele revela a inteligência de quem o inventa. Nasce da curiosidade, da tentativa, do erro repetido até virar gesto. Amo os truques porque eles são filhos da imaginação humana, essa capacidade quase infantil de dobrar a realidade sem precisar negá-la.

Na fotografia, os truques estão por toda parte. No reflexo de um vidro que vira dupla exposição improvisada. Na janela que vira quadro dentro do quadro. No enquadramento que corta o óbvio e sugere o invisível. Na longa exposição que transforma gente em fantasma, trânsito em rio, tempo em matéria visível.

Há truque em fotografar contra o sol para silhuetar os temas. Truque em subir o ISO não por necessidade, mas por desejo de ruído. Truque em usar uma lente errada de propósito, em fotografar através de plástico, de cortina, coisa qualquer. Truque em esperar o instante em que alguém pisca, quando tudo parece fora de controle.

As mágicas sem truques seriam obras daquilo em que não acredito. Mas não são. São construções pacientes, feitas por quem acredita no mesmo que eu: na atenção, no olhar treinado, no erro, no amor à prática. Truques são feitos por gente apaixonada.

E talvez seja isso que mais me comova: saber que, por trás de toda imagem que parece inexplicável, existe alguém que passou tempo demais pensando, testando, errando, até descobrir uma pequena maneira de torcer o mundo só o suficiente para caber dentro de um quadro.

Fotografia é mágica.

Melvin Quaresma1 Comment